Alguns astrólogos trabalham com casas de tamanho fixo, mas a grande maioria prefere métodos de cálculo baseados em quadrantes, como placidus ou koch. Nesse tipo de cálculo, o tamanho das casas pode variar e uma casa pode ter mais ou menos que os 30º dos signos, que são uma divisão exata dos 360º da circunferência. De acordo com a latitude do nascimento, as casas variam mais ou menos no tamanho - quanto mais próximo ao equador, menor a variação.
Agora imagine uma grade de 12 casas de tamanhos variados se colocando sobre o zodíaco com seus 12 signos de tamanho fixo. Dependendo da posição em que caia, uma casa com mais de 30º pode conter um signo inteiro e este signo não receberá nenhuma cúspide de casa. Este será um signo ‘interceptado’ e, pela simetria do mapa, o signo oposto também estará interceptado na casa oposta. E, como efeito desse fenômeno, como são necessariamente 12 signos e 12 casas, haverá também dois signos que receberão duas cúspides cada um. Esse fenômeno, que é uma consequência geométrica, é obrigatório, mas é tão subestimado que não existe nem um nome técnico (como ‘signo interceptado’) para esse signo onde se iniciam duas casas.
O que tiro disso é um fato que, após uma exposição como essa, fica óbvio, mas não vejo ser falado em livros astrológicos. A simples presença de um signo interceptado implica necessariamente em uma relação complexa que envolve quatro signos e quatro casas. E a pergunta surge naturalmente: por que não tratar esse ecossistema como uma unidade na hora de interpretar?
A primeira coisa a dizer é que não estamos tratando de signos, mas de eixos. Cada um dos signos, juntamente com seu oposto, formam um eixo, do qual podemos tirar um significado, mas como num aspecto de oposição, estamos tratando de um tema que inclui tese e antítese, fechando-se em si mesmo de um modo que propõe tanto o problema quanto a solução, em ambos os sentidos. Porque podemos iniciar a interpretação por qualquer lado, que chegaremos, inevitavelmente, ao ponto central do círculo. Quando um signo está interceptado, portanto, é preciso buscar o signo oposto e tratar o eixo como interceptado, falando não das características de um ou de outro, mas da conexão e de como um complementa o outro, compreendendo que se há dificuldade ao lidar com um, também existirá a dificuldade oposta ao lidar com o outro, e o que ajudará essa pessoa é entender qual o caminho para promover esse casamento simbólico capaz de trazer ambos para um ponto médio, onde cada signo envolvido entra com uma parte, como quando cruzamos os dedos das mãos direita e esquerda, achando uma posição confortável para ambas.
Se temos, por exemplo, o eixo Áries-Libra interceptado, não adianta fatiar o problema e dizer que 'há uma questão com a identidade' ou 'uma dificuldade no casamento'. A questão é mais complexa, ela inclui os dois lados dessa moeda. Essa interceptação pode revelar que o indivíduo tenta gerenciar a sua individuação e a sua alteridade em compartimentos separados, como se fossem mundos desconectados. Não estou aqui falando de simbiose com o outro, mas sobre estabelecer um padrão de honestidade consigo e com o outro, removendo barreiras inventadas, que podem criar uma separação que não deveria existir. Nesse eixo podemos comparar nossa autoimagem ao que o outro enxerga em nós e o trabalho deveria ser para igualar essas visões.
Mas o que significa na prática um signo sem cúspides de casa na interpretação de um mapa? Primeiro vamos estabelecer o que as casas representam nesse contexto. Ao nascer nós trazemos uma parte já pronta, a nossa personalidade, que manifestamos desde a primeira infância. Já temos certas características e algumas ferramentas na bagagem e essas coisas que “trazemos do cosmos”, que já nos pertencem independente de experiência de vida, é o que nós somos. Essa é parte representada pelos planetas e pelos signos nas cúspides das casas. Mas de que forma iremos usar essas ferramentas e em que contexto cada faceta da nossa personalidade será testada nas experiências da vida? Isso é o que as casas definem - a comunicação de cada parte nossa com o mundo físico, são as casas que contextualizam a experiência. Cada cúspide de casa é um canal de comunicação entre algo interno e o ambiente externo onde essa força deve se manifestar.
Se um signo não tem nenhuma cúspide, significa dizer que essa energia não tem um canal natural de comunicação com o exterior. Daí vem as interpretações clássicas de “bloqueio”, de “dificuldade de manifestação” ou “dificuldade de acesso a essa energia”. É certo que para quem olha de fora, a energia de um signo interceptado não é óbvia. Mas eu pessoalmente não acho que ela seja menor ou mais fraca por isso. Pelo contrário, acho que acabam sendo energias mais concentradas. Se a cúspide de uma casa abre uma porta para o signo sair, ela também possibilita a entrada, submetendo essa força a questionamentos, ajustes, correções. Cada experiência vivida tem o potencial de modificar o modo como lidamos com o signo em questão. Se não há portas, não há saída, mas também não há entrada - é uma energia concentrada, que pode se tornar uma espécie de “eminência parda”, que dá o tom sem nunca ser questionada e sem se expor.
Há alguns modos de lidar com isso e o mais simples é através dos planetas regentes destes signos interceptados. Usar a função representada por este planeta força a energia do signo a se movimentar, mas planetas colocados num desses signos ou trânsitos sobre ele também tem esse potencial. Aliás, como já foi dito, tocar em qualquer uma das extremidades do eixo em questão, faz ambos os lados reagirem.
Quanto ao eixo com duas cúspides em cada lado, vejo como uma consequência geométrica, mas não simbólica. Não se pode afirmar que o exagero do eixo que lida com quatro casas vai de algum modo ajudar a lidar com os interceptados. Pense num sistema planejado para trabalhar com 12 energias que interagem entre si, mas onde cada uma delas tem um peso específico e único. O que o sistema pede é a simples presença dessas 12 forças. É natural que umas tenham mais força que outras, como as que hospedam grandes concentrações planetárias em comparação com signos vazios. O que realmente pode causar mais problemas é a posição de duas dessas energias, que sem cúspides, não acham um canal para participar ativamente do processo - é isso que o eixo interceptado representa. Com o exagero nós aprendemos a lidar, o que exige um esforço consciente é o eixo interceptado, que deveria participar do círculo, mesmo que seja parcialmente ou com menor intensidade.